segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ricardo Werther, a voz que não se cala!

Ricardo Werther, a voz que não se cala!

Considerado um dos melhores cantores de blues retorna com força total!
Reportagem e foto por Elias Nogueira

Quando conheci Ricardo Werther, nos anos 90 então vocalista do extinto grupo de blues Big Allanbik - fiquei impressionado com seu potencial. Cantor com voz maiúscula - acabei me tornando fã do grupo que revelou outros valores, além de Ricardo Wherther. O tempo passou, Ricardo casou-se, virou pai e agora está volta! Em tempo, depois de uma longa espera, pude conferir de perto seu desempenho no palco da Modern Sound no Rio de Janeiro em Maio, lançando seu primeiro e tão esperado disco solo “The Turning Point”. Na realidade estava com saudades de ver Ricardo cantar.


Como sempre, Werther apareceu cercado de excelentes músicos: na bateria seu irmão Beto Werther, na guitarra Otávio Rocha e na outra bateria Pedro Strasser ambos do Blues Etílicos, Ugo Perrota no baixo e vocal, além de Marco Tommaso nos teclados - teve participação especial do harmônico Flávio Guimarães. Nesse momento senti orgulho de poder conviver com pessoas que fizeram, com seu som, a minha cabeça. Ricardo Werther canta com alma! Leiam o que ele diz!



- Quanto tempo a até o disco ficar pronto? Porque essa demora?
- Algo em torno de dois anos. Pode parecer muito tempo para lançar um disco, mas além do problema de se conseguir um estúdio que comportasse o conceito sonoro das duas baterias e a idéia de gravar ao vivo, sem ‘overdubbing’, desenvolvi uma pesquisa histórica para a escolha das músicas. Só aí, levei quase seis meses. O disco sairia em 2009, mas problemas administrativos levaram o disco ao ano seguinte. No final foi até bom, porque tivemos tempo de sobra para pequenos, mas importantes ajustes de arranjo.

- Quem fez a seleção de repertório?
- Como citei acima, desenvolvi uma pesquisa histórica para a seleção das músicas, pois não pretendia realizar algo autoral no meu retorno. Meu foco era mostrar que existiam muitas outras fontes de artistas e compositores que orbitavam o universo do blues e suas ramificações. O resultado foi excelente, pois creio que consegui mostrar um pouco dessas variantes, juntamente com a minha ‘cultura auditiva’ a qual nunca pude explorar tão livremente na minha carreira.

Você está cercado de excelentes músicos. Foi difícil reunir tanta gente boa?
- Reunir não foi difícil, pelo contrário. Sempre tive a sorte de compartilhar com músicos espetaculares. Dureza mesmo foi escolher o time que iria pro jogo. Só craque! Logicamente existe a dificuldade natural pós-gravação, que é a de segurar a turma contigo, pois paga-se um preço alto por ter artistas dessa estirpe. Não se trata de dinheiro, claro, mas disponibilidade. São várias agendas a ser sincronizadas. Porém todos têm consciência no comprometimento do trabalho e, convenhamos, depois de roer tanto osso, chegou à hora da galera curtir a parte boa do processo. Ou seja, estar no palco, tocar, sentir o trabalho reconhecido. Isto não é um privilégio só meu.

Como você foi parar na Delira Música?
- Quando comecei o processo de retorno à música, estava fazendo experimentos com o ‘Bues Groovers’ - excelente trio com Otávio Rocha, Ugo Perrotta e Beto Werther, que me acompanham até hoje - e após uma apresentação no fim de 2007, o diretor da gravadora fez um convite para gravarmos um disco. O resto é história. Em tempo: Não posso deixar de fazer um elogio à coragem e à visão da Delira Música, que desde 2003 mantém uma chama acesa no direito das pessoas terem acesso a estilos musicais tão pouco divulgados e reconhecidos, através de artistas do quilate de Torcuato Mariano, Marco Lôbo, Turíbio Santos, dentre tantos outros.

 Você fez parte do Big Allanbik, banda de blues muito conceituada no circuito nacional. Pode nos contar um pouco sobre sua participação no Big?
- Claro, é sempre um prazer! Na verdade, não fiz só parte, mas sou um dos fundadores da banda que surgiu em 1992 e que teve seu ciclo concluído dez anos depois. Big Allanbik significa mais do que referência no blues brasileiro, até hoje. Foi o berço que me protegeu e ajudou a forjar minha identidade. Digo isso com muito orgulho e respeito, pois sem ela, não estaria aqui escrevendo pra você. Juntamente com o Blues Etílicos – incólumes portadores da nossa bandeira – foi o melhor grupo de hard blues que já vi no país. Ao contrário de artistas que preferem que trabalhos realizados no passado não sejam associados às suas carreiras atuais, eu faço questão de citar. Acredito que fui tão importante quanto todos os outros membros. Juntos, lançamos quatro discos - o último deles com texto seu, Elias, é bom que se diga - obtivemos reconhecimento nacional e no exterior, formamos a primeira banda de blues brasileira a fazer uma turnê nos EUA e tocamos em lugares e palcos jamais imaginados nos meus melhores sonhos. Não posso reclamar. Mais ainda, novamente ao contrário do que normalmente acontece quando uma banda termina, continuamos grandes amigos. Desde sempre.
 

Antes de cantar no grupo, você já havia participado de outras bandas?
- Sim, de forma amadora, mas diretamente ligada ao próximo passo, que foi o Big Allanbik. Em 1989, existia uma banda chamada ‘Emoções Baratas’ - um estilo ‘rockabilly’ muito legal, com letras autorais e em português – que Beto Werther, meu irmão, foi chamado. Comecei a frequentar os ensaios, levava uísque, tocava o terror. Um típico caroço de estúdio. Nem pensava em cantar, ainda por cima vindo de uma formação jazzística. Um dia, não me lembre o porquê, tiveram a (in) feliz idéia de me colocarem perto de um microfone. E cantei mal, muito mal... Mas, vai saber, fui ‘piorando menos’, engatinhando como todos ali e até acabei fazendo uns shows. Depois, essa banda se juntou à outra de Niterói, chamada ‘Gato Negro’ – estes sim, bem mais escolados no blues – mantendo o mesmo nome da segunda e... Fiquei de fora... Voltei ao meu posto de origem, já meio descontente com tudo. Mas a relação dos músicos não era a das melhores e o grupo acabou. Fizeram um novo time, me chamaram novamente e decidimos que o nome seria - Big Allanbik. 

Quando foi que você descobriu a música?
- Que eu tenha ciência, desde moleque. Meus avós e tios eram musicistas – violinistas, violoncelistas, flautistas... Era uma festa. Meu pai, apesar de não ter herdado o dom da música, não ficou de fora e se tornou um grande musicólogo, apreciador ferrenho do jazz, com uma coleção de quase 5.000 discos do gênero. Criou e apresentou programas de jazz na rádio Tupi e JB nos anos 50 e 60, além de ser catalisador para a vinda de artistas estrangeiros no Brasil. Nossa casa na Urca (RJ) era frequentada por músicos, críticos... Audições de jazz por mais de 12 horas. Era nesse caos sonoro que cresci. Ganhei uma flauta com 12 anos – que tenho até hoje – e passei a acompanhar a família e parentes em saraus, casamentos, o que fosse. Deu no que deu. Não seria jogador de futebol, nem cosmonauta.

Você é considerado, como Sergio Vid (Sangue Azul) e André Mattos (ex Angra), um grande cantor, de voz afinada e bem colocada nas notas musicais. Como você se vê nesta situação?
- Hum... Sentado ao lado de feras! É gratificante não somente ver o seu trabalho reconhecido, mas ler que seu nome pode figurar entre os que você citou, e perceber que todos possuem estilos distintos! Sinal que temos muita coisa boa por aí, diversificada.

Alguma vez já te falaram que sua voz faz lembrar o vocalista do Pearl Jam, Edddie Vedder?
- Várias vezes! A comparação ocorria mais no começo do Big Allanbik, onde eu ainda ‘ajustava’ a voz, para o que viria a se tornar o que sou e faço hoje. Mas na verdade, a voz dele é que parece com a minha, ué. Ele é de dezembro e eu, de junho de 64... Sou mais velho, ora! Brincadeira, hein Eddie... Não leva a mal, OK?



Reportagem publicada originalmente no Jornal do Oeste - Paraná em 04 de Junho de 2010

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